Judaísmo rabínico e o caminho sinodal

Por Oscar García Meza, Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), Peru
Fotos: Jorge Cerdán
Szteinhendler lembrou que o sumo sacerdote era historicamente a autoridade responsável pela interpretação da Torá, composta pelos cinco primeiros livros da Bíblia e considerada o texto sagrado judaico. No entanto, após a destruição do Segundo Templo em Jerusalém, em 70 d.C., surgiu uma nova instituição: a dos rabinos, que se tornaram mestres e intérpretes da lei e “ensinaram o povo a experimentar Deus pessoalmente”.
A partir desse ponto, uma das características distintivas do Judaísmo Rabínico é a compreensão de que a verdade não é alcançada individualmente nem por meio de respostas imutáveis: “A verdade é revelada por meio do debate. Quando alguém diz que está estudando a Torá, perguntam-lhe com quem. E se responder que está estudando sozinho, então não está estudando, está apenas lendo”. As discussões rabínicas são compiladas no Talmud.
A Dra. Birgit Weiler encontrou importantes pontos de convergência entre essa tradição judaica e o caminho sinodal atualmente seguido pela Igreja Católica. “Devemos criar espaços onde a dissidência frutífera possa enriquecer o consenso (…) e fomentar cada vez mais um cristianismo multifacetado, como disse o Papa Francisco, onde a pluralidade e a diversidade tenham seu lugar e sejam percebidas como uma riqueza com a qual se constrói a unidade”, observou ela.
Descobrindo a verdade junto com os outros
Szteinhendler enfatizou que outra característica essencial do judaísmo é a valorização da dúvida e das perguntas. Em vez de se contentar com respostas definitivas, a tradição rabínica nos convida a manter uma atitude permanente de busca, convictos de que nenhuma pessoa possui sozinha toda a verdade.
Precisamos criar espaços onde a dissidência frutífera possa enriquecer o consenso (…) e fomentar cada vez mais um cristianismo multifacetado, como disse o Papa Francisco, em que a pluralidade e a diversidade tenham seu espaço e sejam percebidas como uma riqueza com a qual se constrói a unidade.”
Essa humildade, indicou Weiler, também nos foi demonstrada pelo Papa Francisco no sínodo. “No caminho sinodal que percorremos até agora, muitas vezes se disse ‘o discernimento requer humildade’, o que significa que preciso dos outros para descobrir uma verdade mais plena”, mencionou a professora.
Construindo pontes
Nestes tempos de polarização e fragmentação no mundo, é importante sermos capazes de dialogar entre diferentes crenças e posições. Nesse sentido, Szteinhendler enfatizou: “Para os rabinos, a reparação do mundo é um compromisso da sociedade entre a humanidade e Deus em um nível transversal e universal.” Cada expressão de fé, com suas particularidades, deve contribuir para isso, sem dizer “a minha é a verdadeira e a sua é falsa”. Pelo contrário, no século 21, devemos buscar pontes que nos aproximem, caminhar juntos e dialogar.”
“No caminho sinodal, há um convite para avançar no diálogo inter-religioso e superar o medo de nos conhecermos melhor. Devemos identificar e aprofundar o que nos une, como um chamado de Deus para todos nós”, enfatizou o professor. Dessa forma, os palestrantes e o público refletiram sobre como o debate entre crenças e o encontro nos enriquecem ao enfrentarmos os desafios comuns da humanidade.


